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O LIVRO
Liberato Miranda
Acima de todas as grandezas terrenas
está o livro. É o ponto mais aproximado das sublimidades
divinas.
Todas as nações tem encontrado mais glórias nos seus
livros que em todas as victórias dos seus exercitos. Enquanto vibram
no ar os clarins triumphaes e estandartes e tropheos andam nas mãos
dos victóriosos, mulheres e creanças macilentas procuram,
dentre os corpos que coalham o campo sangrento da lucta, o corpo livido
de seu esposo e pae.
Os sons do epinicio contrastam-se com os clamores stentoricos das mulheres
desgrenhadas e os extremos estertores dos heróes. A gloria alcançada
pelo ferro é humana, exclusivamente humana, e como tal, um requinte
de tyrania próprio da humanidade. É uma victoria sem triumpho.
A espada implanta de um lado a potência, o orgulho, o egoísmo;
de outro, a dor, a ignominia, o opprobrio.
O Livro não: o êxito de um é a emulação
de outro.
Nem Dante nem Shaskespeare enxovalharam suas mãos no sangue de
seus semelhantes para attingir ao ápice de suas aspirações
e tornaram-se con tudo, idolos dos povos.
Napoleão , Nelson e tantos outros absorveram vidas, para chegar
abaixo d'aqueles, visto que nem sempre a fama de um homem tem em todos
os cantos da terra a mesma trombeta que a faz repercutir.
Bemdito o livro ! " esse audaz guerreiro que conquista o mundo inteiro
sem nunca ter Waterloo".
Bemdito o livro que espalha por toda a parte a vida, a luz, o brilho das
almas - a Instrucção!
"Em Christo multiplicando os pães, há Guttenberg multiplicando
os livros ." - Disse Victor Hugo.
Metaphora sublime! Sublime verdade!
Quando o velho de Mayença descerrou as cortinas do mysterio, fazendo
resplandecer a aurora da Imprensa, um jorro de luz divina transfigurou
os povos estupefactos:
Era a extasis do assombro, o phrenesi do progresso.
A Imprensa era uma promessa mysteriosa de Deus. Soubessem disso os povos,
buscariam com mais ardor do que os hebreus buscaram a "terra promettida",
mesmo que encontrassem na sua estrada as mais desoladoras decepções
centenas de mares - vermelhos e os desertos áridos, onde a voz
de um Moyses não acalmasse os ânimos.
Abençoado portanto, aquelle que nos ensina a amar os livros!
Bemdito o livro que nos mostra Deus e nos aponta o porvir!
Estudae, mocidade !
Morro do Chapéu, 2 - 3 - 1928.
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